Curso de Cálculo Numérico

Professor Raymundo de Oliveira

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Método da Iteração Linear

Quando se busca a raiz de f(x) = 0, está-se procurando o ponto em que a função f(x) corta o eixo x. O Método da Iteração Linear (MIL) transforma o problema, procurando isolar o x da função f, de modo a se ter x = g(x). A partir desse ponto, busca-se a interseção da reta x com a curva g(x).

Dessa forma, o método transforma o problema de se encontrar uma raiz da equação f(x) = 0 na busca de se encontrar o ponto em que x = g(x).

Seja a equação f(x) = ex + x – 2 = 0 . Podemos isolar x , de f(x), de diferentes maneiras:

x = 2 – ex = g1(x)

ou

ex = 2 – x , donde, x = ln(2 – x) = g2(x)

ou, somando x aos dois lados de f(x) = 0

x = ex + 2x – 2 = g3(x) etc...

O fundamental é que resolvendo-se o problema x = g(x) , ter-se-á resolvido o problema f(x) = 0 .

Os dois gráficos abaixo mostram a transformação de um problema no outro.

Vejamos o que acontece numa equação do segundo grau:

f(x) = x2 – 5x + 6 = 0 .

Sabemos que 3 é raiz , pois f(3) = 32 – 5. 3 + 6 = 0 .

Isolando-se x temos: x = (x2 + 6)/5 = g(x) .

g(3) = (32 + 6)/5 = 3 . Assim, se f(3) = 0, tem-se que g(3) = 3.

Dessa forma se resolvermos x = g(x) , teremos resolvido f(x) = 0.

A vantagem que se obtem, em alguns casos, é que se pode transformar a resolução do problema num processo iterativo, a partir de uma aproximação inicial que se tenha da raiz.

Vamos supor que se sabe que a raiz está próxima a um valor x0 . Calcula-se g(x0). Se g(x0 ) = x0 , ter-se-á chegado à raiz.

O provável é que isso não ocorra e que g(x0) ¹ x0 . Nesse caso, g(x0) = x1 passa a ser o próximo valor a ser testado como raiz. O processo se repete fazendo-se xi+1 = g(xi).

Em determinadas condições, a seqüência x0 , x1 , x2 ... converge para a raiz r.

O gráfico a seguir ilustra esse processo.

(gráfico)

Vejamos um exemplo numérico. Calcular a raiz de f(x) = ex + x –2 = 0

Fazendo a transformação ex = 2 – x , e fazendo os gráficos dessas duas funções,

Vemos que a raiz está próxima a 0,5. Vamos tomar, portanto, 0,5 como nossa hipótese inicial para a raiz r.

x0 = 0,5

Vamos transformar f(x) = 0 em x = g(x) . Isso pode ser feito de diferentes maneiras:

  1. x = ln(2-x) = g1(x)
  2. x = 2 – ex = g2(x)
  3. x = ex + 2x – 2 = g3(x)
  4. ....
  • Tomemos a primeira maneira: a) x = ln(2-x) = g1(x)

    Calculemos g1(0,5) = ln(2 – 0,5) = ln(1,5) = 0.405465 ¹ 0,5

    A nova aproximação para a raiz será x1 = 0.405465

    g1(x1) = ln(2-0.405465) = ln(1,594535) = 0.466582 = x2

    g1(x2) = ln(2-0,466582) = ln((1,533418) = 0.427499 = x3

    g1(x3) = 0.452667

    g1(x4) = 0.436533

    g1(x5) = 0.446906

    g1(x6) = 0.440313

    g1(x7) = 0.444485

    ...

    A raiz converge para aproximadamente r = 0,44

    O gráfico abaixo mostra a convergência, passo a passo.

    (gráfico 2)

    Tomemos, agora, a segunda maneira indicada acima, de se obter g(x).

    b) x = 2 – ex = g2(x)

  • Partindo de 0,5 , nossa primeira estimativa, vamos procurar melhorá-la, a exemplo do que foi feito com g1(x).

  • g2(0,5) = 2 – e0,5 = 0.351279

    g2(0.351279) = 0.579117

    g2(0.579117) = 0.215539

    g2(0.215539) = 0.75947

    g2(0.75947) = -0.137144

    g2(-0.137144) = 1.12816

    .....

  • Não está convergindo para a raiz 0,44 , e, sim, se afastando dela, ora pela direita, ora pela esquerda.

  • Logo o método nem sempre converge !

    O gráfico abaixo mostra o que aconteceu.

    (gráfico 3)

  • Esquematicamente, há quatro possibilidades, quando se busca a interseção de x com g(x), o que é mostrado abaixo.

    (figura 4)

    Nos gráficos a e c há convergência, nos b e d não há convergência.

    Observemos que em a , a derivada de g é positiva e menor que 1; em b a derivada é positiva e maior que 1; em c a derivada é negativa e maior que –1 e , finalmente, em d a derivada é negativa e menor que –1.

    Dessa forma, vemos graficamente, que há convergência quando a derivada de g está entre –1 e +1.

    Vejamos, analiticamente, porque isso acontece.

    Antes de mais nada, vamos recordar um dos muitos teoremas do Valor Médio, estudado nos cursos de Cálculo.

    Seja g(x) uma função contínua e diferenciável num intervalo (a,b). Haverá sempre, pelo menos um ponto c Î (a,b) , tal que g(c) = (g(b) – g(a))/(b-a) .

    Graficamente, a informação implica em que há pelo menos um ponto c pertencente ao intervalo aberto (a,b) , tal que a tangente em c é paralela à secante que passa pelos pontos a , g(a) e b , g(b).

    A figura abaixo ilustra a informação, mostrando que pode haver mais de um ponto c.

    (figura 5)

    Observa-se que: tg(a ) = g’(c) e que tg(a ) = (g(b) – g(a))/ (b-a).

    Voltando à função x = g(x), onde x0 é a aproximação inicial da raiz r, onde g(r) = r.

    Tem-se a seqüência:

    x1 = g(x0)

    x2 = g(x1)

    x3 = g(x2)

    ...............

    xi+1 = g(xi)

    ...............

    r = g(r)

    Logo, xi+1 – r = g(xi) – g(r)

    Pelo Teorema do Valor Médio, visto acima, g(xi) – g(r) = g(x i)(xi – r),

    onde x i Î (xi , r) .

    Daí: xi+1 – r = g(x i)(xi – r) . Donde: ½ xi+1 – r ½ = ½ g(x i) ½ .½ xi – r ½

    Porém, ½ xi+1 – r ½ é o módulo do erro depois de i+1 iterações (e i+1) e ½ xi – r ½ é o módulo do erro depois de i iterações (e i) .

    Assim, ½ e i+1½ = ½ g(x i) ½ .½ e i ½ . Dessa forma, o novo erro será menor que o erro anterior se ½ g(x i) ½ < 1. A partir daí, pode-se demonstrar que sendo ½ g(x i) ½ < 1 o erro e i tende a zero se i tende a infinito. (bibliografia 3 pag. ...). Sendo e i = xi – r , temos que xi tende a r.

    A condição é suficiente mas não necessária. É suficiente, isto é, havendo um intervalo I = (r-d , r+d ) onde ½ g(x ) ½ < 1 , para todo x Î I , então, para qualquer x0 Î I , a seqüência x0 , x1 , x2 , .... , xi tende a r, se i tende a infinito. Mas, não é necessária, pois pode haver um intervalo onde nem sempre ½ g(x ) ½ seja menor que 1 e ainda assim haja convergência, como indica a figura abaixo.

    Vejamos o que ocorreu nos dois exemplos apresentamos acima.

    No primeiro, onde houve convergência, foi feita a transformação x = ln(2-x) = g1(x). A derivada g1(x) = -1/(2-x). Sendo a raiz próxima a 0,5 temos: g1(0,5) = -1/1,5 = -0,67. Assim, | g1(0,5)| < 1. Haverá, necessariamente, convergência para a raiz.

    No segundo exemplo, onde não houve convergência, tinha sido feita a transformação x = 2 – ex = g2(x). A derivada g’2(x) = – ex . Sendo a raiz próxima a 0,5 , tem-se: g’2(0,5) = -e0,5 = -1,65. Assim, | g’2(0,5)| > 1, o que não garante convergência. No caso não houve, como se viu, convergência.

    Se você tiver dúvidas sobre a matéria, meu e-mail é: raymundo.oliveira@terra.com.br

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